Imponha-se como quer ser tratado

Não é difícil pra mim falar sobre a minha infância. E olha que eu não tive os melhores brinquedos, não estudei nas melhores escolas, sempre fui gordinha, não era a mais bonita da turma, nem nada que seria digno de ser tratada bem pelos colegas na infância e adolescência. Muito pelo contrário. Mas, eu nunca me senti excluída, nunca senti que faziam bullying comigo ou que riam de mim na minha falta.

Das duas uma, ou eu era completamente desligada, ou realmente não acontecia. E visto que eu tive amigos, nunca estava sozinha, me diverti muito quando criança e vivi muito na adolescência, eu não era desligada. Sempre desconfiei de tudo e todos, sempre fiquei ligada em todos os assuntos, sempre me impus.

Hoje eu percebo o quanto a minha postura mudou a visão dos outros. Ninguém ousaria na infância me deixar de fora das brincadeiras, eu entrava mesmo assim, eu fazia com que os amigos quisessem brincar comigo. Lembro de uma vez, em torno de 5 ou 6 anos, que em época de festa junina, onde as mais gordinhas e tímidas não queriam nem participar da festa, eu era a mais requisitada, eu queria aparecer e queria ser notada e eu era. Seria fácil dizer sobre essas coisas entre os 5 ou 6 anos, afinal, nessa época ser gordinha é o mesmo que ser fofinha e linda na maioria dos casos, e era assim que eu me via e não tinha ninguém na face da Terra que me faria achar o contrário. Mas, eu cresci e mudei de escola.

Pra quem estudou em escola pública lá nos anos 90, sabe que ficamos em uma escola até os 6 e então teríamos que ir para o ensino fundamental que seria outra escola. Eu era popular até os 6 anos, todos me queriam por perto e eu era a confiança em pessoa. Mas, com a mudança de escola isso ficaria? Bom, na minha concepção, ficou. Mudei de escola e continuei me sentindo linda, incrível e inteligente. Como que eu permitiria que alguém me 'zuasse' por ser gordinha? Eu não ouvia nada que não me fizesse bem, simples. Se alguém tentava dizer que a gordinha não podia praticar um esporte pelo peso, eu mostrava que podia sim, fazia o maior esforço que pudesse pra mostrar que eu podia. Quando desafiaram a minha inteligência, eu quis ser a primeira da sala, com o apoio da minha mãe sempre, eu buscava ser a mais inteligente. Se me diziam que eu era feia, eu arrumava um batonzinho e voltava a me sentir bonita. Com o tempo, eu me sentia incrível tanto quanto na outra escola. Eu impus a minha visão de mim mesma aos outros, ninguém me veria menor, ninguém me veria menos e ninguém faria bullying comigo por nenhum motivo. E se tentassem, eu sempre descobria uma forma de sair por cima, porque eu sempre soube que sou incrível e sempre me amei a ponto de saber o que tenho de melhor. Eu sobrevivi feliz a fase dos 7 aos 14 anos. Eu segui modas pra me encaixar como toda adolescente, gostei de coisas que nem gostava tanto só pra dizer que eu estava 'por dentro' das novidades, mas eu nunca deixei de ser eu. Então chegou a fase mais difícil, o ensino médio.

No ensino médio todo mundo acha que é adulto. Cada um quer provar mais ao outro o quanto é popular, descolado e, porque não, pegador. Eu vi meninas fazendo papel de ridículo por meninos, vi meninos fazendo papel de ridículos pra outros meninos, vi gente se excluir porque achava que 'aquele mundo não era pra eles'. E eu fui neutra. Minha imposição pra mim mesma era que eu precisava estudar pra ter o melhor emprego, o melhor carro, a melhor casa, viajar para os melhores lugares, e mostrar tudo isso pra todos aqueles outros. Mostrar que eu não precisava ser nada daquilo pra ter sucesso. Quando tentaram me deixar pra baixo, porque eu não tinha o corpo ideal pra ser desejada pelos meninos, eu fui amiga de todos, eles não desejavam meu corpo talvez, mas desejaram minha amizade, minha companhia, e sinceramente, que bom que foi assim. Não fui objeto, e mesmo sofrendo por não ter todos os meninos correndo atrás de mim, como acontecia com algumas amigas, sofrendo por sair do ensino médio sem namorado, hoje eu vejo que valeu muito a pena. Com o tempo a gente aprende que nem tudo que queremos é bom na hora que queremos. Mas eu me impus, não fui derrubada pela adolescência e era, sem dúvida, uma das amizades mais divertidas e confiáveis que todos ali tinham. Nunca fui humilhada, nunca fui excluída, nunca sofri nenhum bullying.

Se você chegou nessa parte do texto é por dois motivos. Se viu nele ou acha que eu sou uma idiota que nem sei onde quero chegar. Mas, o que eu quero mostrar com o resumo da minha história social de infância e adolescência é que eu não tinha nada pra ser popular, eu tinha tudo pra ser a gorda zuada da turma, ser aquela que se exclui e sofre bullying, mas eu fiz com que o mundo não visse assim. Tantas vezes já fui chamada de gorda, como se isso fosse um defeito, sendo que é só um atributo físico. Algumas que marcaram, o que dará um texto pra outro dia, algumas que me deram boas histórias, algumas que nem lembro, mas, e daí que um dos meus atributos físicos é ser gorda? O de outra pode ser ser magra, e ninguém xinga ela por isso na maioria das vezes, mas se essa magra não impõe o que quer ser, ela vira a magrela, vira um xingamento.

Eu decidir me impor, porque eu sei que sou incrível! E não tenho nada de diferente de outras pessoas, não nasci com nenhum dom extraordinário, ao meu ver, mas só por isso eu deixarei o mundo dizer que eu não sou incrível? Só por isso deixarem outras pessoas com defeitos dizerem o que eu sou e se isso é bom ou ruim? Não mesmo! Não deixe você também, se imponha! Faça seus atributos físicos serem vistos apenas como atributos físicos, quando alguém tentar te derrubar com algo que você talvez não goste muito, ataque ele com o que tem de melhor, e nunca permita que aquilo que ele acha de você vire o que você acha de você.

A nossa imagem é criada por nós e não pelos outros. Imponha-se a ser tratado como quer ser tratado! Imponha as suas qualidades em frente aos seus defeitos. Mostre ao mundo o quão incrível você é, se você for o primeiro a se achar incrível abrirá uma porta para a felicidade e não precisará ter medo das opiniões alheias, você será incrível!

Sou gorda? Claro que sim, gorda é qualquer pessoa que esteja acima de um X peso. Isso é só um atributo físico. Isso não muda o que eu tenho de incrível. Isso não me faz menor. Isso não é um xingamento e isso não me atinge, sabe por que? Porque eu me impus a ser incrível! Imponha-se!

 

 

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